quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Sobre ideologia e ciência: sobre posicionamento político e metodologia científica


            Qual a melhor moldura para seu quadro: posicionamento ou ciência?*

            Se me perguntas o que é ideologia, tenho que te perguntar em resposta: de quem?
            Se respondes decepcionada: "não me respondestes", terei então que escolher, indeciso, se narro a história do termo – a filosofia e a história fazem isso melhor que minha área: a primeira poderia “pegar” o termo e discutir seus significados, sua história em parte, como já fez Marilena Chauí; a história, o que dizer? Ela poderá situar a ideologia em seus contextos históricos, dizendo o que estava em jogo, quem a criou, como se difundiu, quais os elementos inconscientes ou não tão evidentes que apenas a leitura das fontes históricas não seriam suficientes, pois a historiadora faz parte da construção do conceito assim que decide também fazer escolhas buscando a metodologia científica para pesquisar o assunto.
            Sociólogo de formação, te diria então que a situaria na sociologia e como ela fez parte desta área. Nascendo antes de Karl Marx, mas por ele apropriada, ela significava inicialmente uma “ideia falsa” que ignoraria as relações sociais reais entre a classe que extrai da natureza os bens materiais que mantém as forças de produção de toda a sociedade. A classe dominante, na estrutura de classes, que seria a proprietária dos recursos de trabalho e da produção da “riqueza material” produzida pela classe trabalhadora produziria a ideologia a seu favor. Assim, a ideologia dominante seria a da classe dominante, que precisaria inventar “ideias falsas” para enganar a classe trabalhadora para que ela acreditasse que o sistema social era justo. Não vou me alongar noutros significados desenvolvidos por Marx (e mostrarei que essa escolha apaga outras).
            Encaixando essa imagem em minha “moldura”, em minha narrativa, eu continuaria e diria que, se uma classe é dominante, então ela cria a ideologia (ideia falsa) que sustenta a organização da sociedade e, portanto, que está por trás da ciência. Assim, a ciência seria uma atividade mantida pela produção da classe trabalhadora, mas na ideologia burguesa, dos patrões, que dominam a política com sua ideologia, então a ciência estaria dominada pela ideologia burguesa. Essa conclusão não é apenas “lógica”, ela foi utilizada por socialistas e pensadores/as de esquerda para criticar toda a ciência produzida que não fosse voltada para a “luta de classes”. Resultado: o que os EUA produzia, era criticado pela esquerda. Se outros dois clássicos da sociologia “tradicional” criticavam Marx, então eles estavam a favor da burguesia e contra a classe trabalhadora.
            Nesta linha de raciocínio, assistimos no Brasil o desenvolvimento da ciência e das ciências sociais. Curiosamente, o governo atual taxa tudo que se opõe a sua visão de mundo, seus valores e, em última instância, a ciência que não faz parte dos ideais governistas, como ideologia. Ironicamente assistimos a inversão na história de quem utiliza o termo ideologia para acusar seus inimigos de terem “ideias falsas” (ideologias).
            Marx, como profeta, dizia que a história acontece duas vezes, uma como tragédia, outra como farsa. Com o governo bolsonaro, acontece os dois: a tragédia e a farsa de utilizar as ferramentas do marxismo, a concepção marxista de ideologia, contra comunistas, e contra todos classificando-os de ideólogos. Não se enganem, Marilena Chauí nos lembra que quem primeiro usou (“reza a lenda”) e  quem primeiro “distorceu” o termo ideologia, que seria inicialmente uma ciência das ideias, chamando seus opositores de ideólogos, foi Napoleão Bonaparte.

            Metodologia científica e posicionamento político

            Já vimos que no passado, o posicionamento político entre cientistas sociais estava contra a sociologia clássica não marxista e a sociologia dos EUA. Elas seriam ideológicas. Portanto, como certos sociólogos andam dizendo, não ler textos de outros autores não é uma coisa pós 1964 e da nova geração de cientistas sociais.
Agora, o que está em questão é metodologia (mais à frente falo de posicionamento de novo). Basicamente, como as ciências sociais vieram historicamente depois de ciências como a física, a química e a biologia, por exemplo, que se baseavam na matemática para suas práticas metodológicas, as ciências sociais não fizeram diferente. Aliás, fizeram. Na França, onde oficialmente a sociologia se tornou oficial, esse método baseado na matemática e, claro, em experiências, foi utilizado pelas ciências sociais; na Alemanha, outra interpretação tentou desenvolver um método próprio, e não baseado em Karl Marx, pois seu método tinha uma mistura de filosofia com história e matemática (método dialético), às vezes até chamado de antropologia filosófica, e esse método alternativo a Marx era baseado numa sociologia que entendia que deveria tornar compreensíveis os fenômenos humanos, pois pessoas não são como animais selvagens, florestas e plantas, ou compostos químicos e ondas de magnetismo e eletricidade.
Historicamente, no entanto, o primeiro método, mais “matemático” foi o que vingou no Brasil, justamente na USP, que oficializou às ciência sociais no Brasil. No Nordeste, existia Gilberto Freyre e outras pessoas tentando fazer uma ciência mais próxima ao cenário brasileiro, defendendo uma metodologia mais “raiz” e menos “nutella”. Mas, isso não aconteceu. Na segunda metade do século XX, porém, não foi apenas no Brasil que o primeiro modelo, que podemos didaticamente classificar de positivista, “deu errado” nas ciências sociais. O segundo método, defendido pelos alemães, começou a ganhar a força.
Na mesma época, o marxismo como um posicionamento político e científico, começou a declinar, principalmente após a Queda do Muro de Berlim (1989). Ao mesmo tempo, novos movimentos sociais, como o feminismo, o pós-colonialismo e movimentos antirracismo estavam defendendo posicionamentos políticos contra a ciência “ideológica”, pois o método matemático não garantia que a ciência, quando contextualizada social, cultural e historicamente, não fizesse parte das dominações. Notar que desde Marx que esse “mecanismo acusatório” já era empregado para denunciar a ideologia burguesa por trás da ciência.
Então, novamente, a pulsão, a repetição: a ciência era escrava da ideologia. O posicionamento político definia qual ciência ler e qual ciência praticar. E aqui, não estamos diante de nenhuma “inversão” ou “novidade”, estamos diante de uma prática se repetindo, mesmo que, claro, não possa se reduzir a ser cópia do passado. Apenas vemos as coisas acontecendo de maneiras semelhantes. Nosso erro foi se esconder como gatos, deixando a calda de fora. Não, não há novidade aqui.
A metodologia científica varia. Varia conforme objetivos, dados que se devem colocar, perguntas que se devam compartilhar, consensos que se devem manter ou substituir. A ideia de uma unidade científica é um mito. A ciência varia entre áreas, também. E aqui, vem uma coisa que julgo muito importante: nas ciências sociais, e aqui me refiro apenas à sociologia e à antropologia, método e objetividade são coisas quase que totalmente diferentes. Digo isso porque saí do mestrado em sociologia e entrei no doutorado em antropologia jurando que era a mesma coisa e levei uma tapa na cara. Portanto, culpar o Brasil e às ciências sociais por deixar a sociologia perder seu método e cair na ideologia é um absurdo e, salvo os posicionamentos, formações, e intenções, é falar com outras palavras o que o bolsonarismo vem fazendo.
            O que precisa ser esclarecido é que ciência e objetividade são coisas relativas. Principalmente nas ciências sociais. Buscar objetividade científica não é um caminho errado, do contrário não se estaria fazendo ciência; mas existem formas alternativas de se fazer isso. Por outro lado, reduzir a ciência não apenas à ideologia, mas deixar de ler algo porque não vai de acordo com meu posicionamento político é, sem sombra de dúvida, o mesmo que a religião fazia no passado, dogmatismo (e hoje, assim como o bolsonarismo). E sim, isso é onde cientistas sociais e de humanas perdem, pois sinalizam para o bolsonarismo que só se faz ciência ou com um posicionamento ou com outro. Quem perde? A ciência. E a quem a ciência tem o dever de beneficiar? A todos e todas. Combater os interesses políticos que decidem quem financia, quem faz política social, quem se beneficia do desenvolvimento tecnológico, por exemplo (agronegócio ou agroecologia e orgânicos?), é só um de tantos interesses por trás da ciência. É por isso, aliás, que as coisas precisam ficar claras: fazer ciência pode ser fazer política com outros meios, mas ciência e política são práticas específicas, apesar de interdependentes. Do contrário, não haveria diferença entre fazer um carro ou uma estrada e fazer um decreto ou uma lei. Não, definitivamente não se pode fazer o mesmo que o governo faz ao reduzir as ciências humanas e sociais à “doutrina” e à “ideologia”.

P.S. Eu te amo. Ops: essa é só uma leitura possível. Portanto, descarte esse texto. Mas pesquise diferentes fontes confiáveis. Defender sua posição é esconder outras é, justamente, anticientífico.

Texto escrito como crítica a uma entrevista recente de Jesé de Souza Martins. Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/592388-os-sociologos-distraidos-e-a-invasao-ideologica-nas-ciencias-sociais-entrevista-especial-com-jose-de-souza-martins?fbclid=IwAR0toJenLKI2-AE_HGbkcK5lqGTUThQGeZ2JXon68RibKJQ8af9KMmfKyDo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Duas religiões econômicas no comércio

 - Terminei. Vamos? - Diz minha pequena. - Posso ir ao banheiro? - Diz minha segunda pequena. Alguns minutos depois, caminhamos sobre o asfa...